21.4.15

Emigrar | O "El dorado" não existe



Quando te mudas para outro país existe o lado bom e o mau; o lado positivo e o lado negativo. Neste momento a única coisa boa que tenho aqui é o facto de estar a viver com o meu namorado e todos os momentos que passo com ele e com as pessoas que fui conhecendo, quanto ao resto não posso dizer que seja uma desilusão porque nunca vim com a ideia de que quando cá chegasse seria tudo cor-de-rosa. Por toda a internet poderão ler testemunhos que contam experiências satisfatórias, enriquecedoras e a dizer que mudarem de país foi a melhor coisa que alguma vez fizeram e que tudo correu às mil maravilhas. Aqui encontrarão o outro lado da moeda. O mau. 

Nunca quis sair de Portugal, nunca pensei que seria capaz de deixar tudo para trás e de vir para um país onde tudo me era estranho menos a língua onde a única pessoa que conheceria e que poderia contar, pelo menos por algum tempo, seria o meu namorado. Quando terminei o meu mestrado mandei vários CVs para várias empresas de Inglaterra, fui contactada para algumas entrevistas que depois não deram em nada. Chegou a Setembro e visto que tanto eu como o meu namorado estávamos cansados de viver com as saudades constantes e as viagens temporárias que ele tinha de fazer decidimos que mesmo eu ainda não tendo trabalho que valeria a pena arriscar. Não me arrependo, mas se em Portugal não tinha encontrado nada que me satisfizesse a nível profissional também não foi aqui, pelo menos até agora, que o encontrei. Mandei dezenas e dezenas de CVs para tudo o que era sítio e para todo o tipo de trabalho que ia encontrando, tive dezenas de entrevistas que não deram em nada. Tive experiências no mínimo desagradáveis como insistirem que eu precisava de um visto para trabalhar aqui quando é óbvio que não preciso. Quando digo que sou Portuguesa, pensam que Portugal fica em Espanha e que portanto falo Espanhol. Um dia fui a uma entrevista em que ao responder a uma pergunta engasguei-me ao dizer uma palavra - coisa normalíssima e que acontece a qualquer um mesmo quando está a falar na sua primeira língua - mas neste caso serviu como passe para me dizerem que existe uma grande comunidade de Espanhóis em Nottingham e que eu poderia ir aprender a falar Inglês com eles. Respondi "Pena que não seja Espanhola, mas obrigada pela informação". Passados alguns meses encontrei um trabalho em sales onde tinha de trabalhar diariamente dez horas por dia, seis dias por semana com uma pausa de vinte minutos para almoçar, onde só ganhava à comissão e ainda tinha de gastar imenso dinheiro em comboio porque o trabalho não era sempre na mesma cidade. Ao fim de algum tempo despedi-me e foi a melhor coisa que fiz. Desde então ainda não consegui arranjar outro trabalho, mas tenho conseguido fazer algumas vendas a fazer aquilo que eu gosto. 

Há dias em que me sinto vazia, sozinha e em que penso que na verdade não sirvo para nada. Há dias em que sei o que quero e depois existem outros em que me encontro completamente perdida e que já não sei para onde mais mandar CVs. No entanto, sei que se estivesse em Portugal o cenário não seria muito diferente e que o mais provável seria ainda estar a viver com os meus pais.  Pelo menos aqui fiz algum avanço a nível pessoal. 

Como eu disse, há o bom e o mau. Conheço pessoas que estão a viver aqui que dizem que desde o dia em que aqui chegaram não estiveram um único dia sem trabalho (custa-me a acreditar, principalmente quando são pessoas que não têm um trabalho fixo), mas se calhar estas pessoas encontraram o seu El dorado, mas eu continuo a não acreditar nele. 

Mudar de país não é fácil. Não é fácil não estar nos aniversários das nossas pessoas, não é fácil quando tudo o que queríamos era o abraço da nossa mãe e não o podemos ter, não é fácil quando recebemos más notícias, não é fácil e neste momento, pessoalmente, não tem sido fácil viver com o sentimento de que falhei nem é fácil voltar a Portugal e ter de responder "não, ainda não tenho trabalho" (caso queira dizer a verdade) quando as pessoas da vila me perguntam o que ando a fazer e me olham com aquele olhar reprovador de quem pensa "querias ir para a Inglaterra a pensar que irias tornar-te melhor do que nós e agora lixaste-te, bem feita". 

Sei que este texto é tudo menos motivador, mas neste momento onde muitos vêm como única solução a tomada de decisões drásticas acho que é necessário que se dê a conhecer o que poderá correr mal. 

8 comentários :

  1. Como eu me vi neste texto. Realmente não é nada fácil e emigrar não é a mina de ouro que muitos pensam. é dificil arranjar trabalho e quando se arranja nem sempre é aquilo que sonhamos. Eu tenho trabalho, mas aquele que pensei ser um trabalho que me ia ocupar todos os dias está-se a tornar num trabalho que me manda estar em casa e só me chamam um ou dois dias por semana, e a ganhar a hora isso não é nada. E depois a falta que a familia faz, por muito que pensemos nisso, nunca temos noção do quanto realmente isso custa.

    ResponderEliminar
  2. Nunca saí de Portugal para viver fora, mas não tardará acontecer semelhante. Uma amiga minha foi a duas semanas para Londres, mas já com contrato feito, para um Hospital em Oxford. Ela não queria ir, nunca tinha ido a Inglaterra e pior, deixou cá o namorado, familia e amigos. Ia completamente deprimida, sem motivação. E, hoje, está adorar viver lá. Mesmo que seja por pouco tempo, está adorar tudo. Teve alguns problemas burocráticos, principalmente para abrir conta, mas como já resolveu tudo, está a ser uma maravilha para ela. Foi sorte.
    Infelizmente nem todas as experiencias são iguais, são satisfatorias e tenho pena que neste aspeto, estejas a sofrer com isto.
    Mas, és forte e a vida vai sorrir-te!! ♥

    xoxo, Sofia Pinto
    Morning Dreams | Facebook | Instagram

    ResponderEliminar
  3. As pessoas antes de tomarem uma decisão têm de conhecer os dois cenários :) E tudo vai correr melhor no futuro

    ResponderEliminar
  4. Não é fácil estar noutro país, longe de tudo e de todos, ainda por cima sem trabalho. Já passei por isso e quase que dei em doida. Mas com tempo e persistência tudo se consegue. Tenho a certeza que contigo vai acontecer o mesmo :) beijinhos

    ResponderEliminar
  5. Vai fazer um ano que mando CVs todos os dias (em Portugal e para Portugal - todo ele!). A minha vida é acordar, ligar o pc, ir aos sites de emprego e candidatar-me a tudo o que encontro e onde tenho os requisitos que pedem. Respostas? Nem vê-las, um ano e ainda só fui chamada para duas entrevistas que em nada deram. É triste e frustrante e sei como te sentes. Essa coisa de começarmos a sentir-nos um peso, um fardo (sinto muito disso em casa dos meus pais porque vejo que estão a sustentar-me sem eu conseguir dar nada em troca), o achar que não sirvo para nada, não sei no que sou boa, ninguém me quer empregar e por isso o problema devo ser mesmo eu... É triste, seja aqui seja em qualquer parte do Mundo. Mas olha querida, perseverança e nunca desistas porque melhores dias virão e Inglaterra vai-te sorrir :)

    ResponderEliminar
  6. O meu irmão emigrou para o Canadá e, pelo menos lá, conseguiu arranjar trabalho de um dia para o outro. Mas acredito que o Canadá tenha imensas oportunidades de emprego até porque os canadianos têm a fama de não gostarem de trabalhar... É uma questão de continuares a tentar. Vais ver que quando menos esperares, algo vai surgir

    ResponderEliminar
  7. Emigrar não é mesmo nada fácil... Mas hás-de arranjar algo, vais ver. Boa sorte! Beijinhos

    ResponderEliminar